
Uma coisa que sempre me fascinou foi estudar o funcionamento do nosso corpo. Aquilo que chamamos de “fisiologia” me parece algo profundamente inteligente e bem organizado. Um exemplo claro disso é observar como o corpo da mulher que cicla se prepara, mês após mês, para uma possível gestação — mesmo que ela não venha a acontecer. Existe uma espécie de orquestra silenciosa entre órgãos e hormônios que funciona de forma precisa para permitir a ovulação e, mesmo quando tentamos automatizar esses processos, o corpo nos lembra que somos humanas, biológicas e cíclicas.
Na fase da ovulação, pode ocorrer um aumento natural do desejo sexual, e algumas mulheres voltam a sentir o desejo espontâneo — aquela vontade que surge sem planejamento. Não é sobre libido que quero falar hoje, mas sobre ciclos e emoções.
Durante alguns anos da minha vida, optei por bloquear a ovulação com o uso de anticoncepcional, uma estratégia terapêutica que indicamos com frequência e que pode trazer qualidade de vida quando bem indicada. Faço essa prescrição na prática diária e sou totalmente a favor quando há indicação clínica. Ainda assim, pensando em outros aspectos do funcionamento do corpo feminino, me pergunto com frequência: quanto deixamos de aprender quando deixamos de observar nossos ciclos?
Quando falamos em ciclo menstrual, não estamos falando apenas de ovários e útero, mas também de cérebro, emoções e comportamento. A cada fase do ciclo, há uma mudança importante na interação entre hormônios e neurotransmissores. O estrogênio, por exemplo, influencia diretamente a serotonina e a dopamina, relacionadas ao humor, à motivação e à sensação de bem-estar. Após a ovulação, com a predominância da progesterona, o corpo entra em um estado mais introspectivo, com maior sensibilidade emocional em algumas mulheres.
É nesse contexto que a TPM costuma aparecer. Não como um problema de personalidade, mas como um período de maior vulnerabilidade neuroquímica. Na fase lútea, a queda do estrogênio pode reduzir a serotonina e aumentar a sensibilidade ao estresse. Por isso, a TPM se manifesta de formas diferentes — não é exagero nem falta de controle, é biologia atravessando a experiência emocional.
Talvez o ponto mais negligenciado da TPM seja justamente o potencial de sensibilidade que ela revela. Emoções que ficam amortecidas em outras fases tendem a emergir com mais força. Quando observada com menos julgamento, essa sensibilidade deixa de ser apenas sofrimento e passa a ser informação, participando do amadurecimento emocional. Ainda assim, muitas vezes a escolha é evitar esse contato — algo comum hoje, e especialmente frequente entre mulheres profissionais. Aqui falo como mulher e médica: quantas vezes é mais “confortável” ignorar ou evitar entrar em contato com as próprias emoções para seguir funcionando? Talvez por isso a TPM incomode tanto: ela rompe essa contenção.
Falar sobre sentimentos, no entanto, não significa suportar tudo sozinha. Há momentos em que essa sensibilidade ultrapassa o limite do saudável e passa a gerar sofrimento significativo. Nesses casos, reconhecer que o cérebro também pode adoecer faz parte do cuidado. Existe, inclusive, uma condição específica — o transtorno disfórico pré-menstrual — sobre a qual podemos falar em outro momento. O mais importante aqui é lembrar que há recursos terapêuticos seguros e eficazes. Medicação, quando bem indicada, não silencia quem a pessoa é; pode devolver estabilidade e espaço interno. Psicoterapia, acompanhamento médico e ajustes de estilo de vida são caminhos complementares.
A TPM pode ser, então, um momento do mês em que o corpo nos interrompe e nos convida a olhar para emoções que foram negligenciadas ao longo do tempo. Talvez o papel da psicoterapia — e do cuidado contínuo com a saúde emocional — seja justamente esse: ensinar a entrar em contato com essas emoções em pequenos doses, no dia a dia, para que não seja preciso esperar que o copo transborde.
Texto por Dra. Juliana Dutra – Ginecologista